08/06/2007 01:24
Histórias de Gente e Anjos
Doce Medo
Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura,eu tenho medo,dessa beleza das noites secretas
quando chegas
sempre como se fosse a única vez.
Tenho medo que um dia queiras
cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu.
Altéria artemísia aretusa,a medusa surge do poço onde mora,a bela audaciosa dona de tudo que tanto receio e tanto quero ter.
Deu para me contar histórias com anjos,de anjos. Agora, é aquela do homem-anjo e da mulher-anjo e de seu possível encontro. Duas pessoas raras procurando-se,vencendo vales e mares para se encontrarem,trançando as asas num vôo transgressor,banindo o trivial e tendo ali,com êxtase e dor,a sua recompensa.
Havia quase um anjo.
era ainda um homem comum,exceto pela mente inquieta e pela alma em êxtase frequente,que seu cotidiano de deveres e correrias ainda não conseguira eliminar de todo.
Começou a sentir um incômodo nos dois ombros,distensão muscular,má posição no trabalho... Foi piorando e um dia olhou-se no espelho,de lado,inteiro e nu depois do banho:não havia dúvida,duas saliências apareciam em sua pele.
Teve muito medo,mas decidiu não comentar com ninguém, e, como não transava frequentemente com a mulher, conseguiu esconder tudo quase um mês.
Então,entre assustado mas também intrigado - pois o estranho fenômeno não doía -, viu que se desenhavam em suas costas duas asas,não ainda nascendo,mas claramente demarcadas debaixo da pele.Fez como via fazer sua mulher: pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ajeitava o cabelo e passou a analisar todo dia aquele fenômeno, que em vez de o assustar agora o intrigava.
Estou ficando louco de uma vez, ou é um tumor esquisitíssimo, ou tem mais gente assim no mundo?
E pensava:
Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande,não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado.
E o tempo passava.
Certa vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas
enfim se lançavam de suas costas,e viu-se enfeitado com elas,desdobradas, enormes,naturais como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e , acordando, se espojasse sobre as águas.
Ficou ali,nu diante do espelho,estarrecido.
Ou encantado.
Agora ele não era apenas um homem comum com contas a pagar,emprego a manter,família a sustentar,filhos a levar para o parque,patrão a agradar,horários a cumprir:era um homem com um encantamento.
Fora tocado pelo diferente.
Nem dor sentia,nem verdadeiro medo,mas espanto como diante de uma paisagem,um quadro,uma música quase insuportavelmente bela.Como quando começa a nascer da cinza cotidiana um novo amor.
Eram instigantes aquelas asas,e era belo sobretudo aceitá-las como parte de si: estavam desde sempre nele,esses vôos todos, e ele sempre soubera, sempre desejara, e sempre invocara: e agora, o que faria com aquilo?
Cabia a ele decidir.
E pensou: asa deve ser natural, a coisa mais natural para quem não está inteiramente embotado: promessas de vôo como num peixe-voador que se alça acima das águas - no mar debaixo da minha varanda enquanto eu esperava que o momento da alegria chegasse.
Também eram umas asas muito práticas ,porque,desde que usasse camisa um pouco larga, acomodavam-se maravilhosamente debaixo das roupas.
E só à noite,quando nada se movia senão um vago vento nas árvores,ele saía para o terraço,tirava a roupa e deslizava,varava os ares enquanto tivesse vontade.
A mulher que vivia com ele apenas percebia alguma coisa diferente no corpo de seu homem.
Mas a idéia de um par de asas era tão absurda,tão remota naquele homem cotidiano, que cumpria seus deveres pagava suas contas bebia com os amigos levava os filhos ao parque nos domingos e digia seu carro e raramente fazia sexo com sua mulher - com outras nem pensar, porque tinha medo e estava sempre cansado demais - que jamais lhe ocorreria.
Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre melhor confiar desconfiando", daquele seu ela jamais imaginaria tamanha estranheza.
Como não o visse despido,porque há muito não faziam mais aquela brincadeira de tomar banho juntos,apenas notou alguma coisa singular naquele seu homem: além de mais distraído (mas com ar mais contente, como se estivesse sempre vendo uma paisagem que ninguém mais via),também andava mais curvado.
Estaria doente?
Andava encurvado para dissimular a sua nova condição, porque nunca sabia o que a mulher seria capaz de perceber - o olhar das mulheres pode discernir o que nem a gente mesmo percebeu ainda.
- Você vai acabar corcunda desse jeito,aprume-se - ela dizia no seu tom conjugal.
O homem,solitário,sofria: era duro transformar-se e não poder partilhar isso com ninguém. E começou a procurar outros parecidos.
As coisas se complicaram quando, já habituado à sua nova condição, o homem-anjo olhou em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só.
Pois os anjos acabados não se sentem sozinhos : vivem completos com a música do mundo que gira dentro deles e os preenche totalmente.
Aquele anjo-homem ou homem-anjo, com as asas de sua imaginação ou sua arte desdobrando-se e crescendo incansavelmente, buscava companhia. Alguém que falasse sua linguagem, e seria a linguagem de um centauro, a linguagem do meio nascido projetando-se no vento, que ele agora ainda era. Alguém para partilhar a angústia dessa possibilidade de se expandir.
Então, quando se resignava em ser sozinho, ele se apaixonou; e pensou muito antes do primeiro encontro amoroso, pois certamente essa mulher descobriria o seu segredo.
Mas como a paixão no início é sempre um terremoto, um risco e uma glória, finalmente ele se entregou.
Na primeira noite com sua amante, ansiosa, ardente como ele, tirou a roupa toda e, quando ela começava a apalpar-lhe as costas, remexendo-se gemendo embaixo dele, o par de asas se abriu, arqueou-se, unindo as pontas bem no alto por cima dele na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou... apertou-se mais a ele,e dizia vem comigo,vem comigo,vem comigo...
E abriu suas asas também.
Agora o homem-anjo tinha duas mulheres: a cotidiana, que nem notava as asas; a mágica, que voava nos braços dele naquelas noites raras.
Uma era o familiar e o conforto e lhe dava uma certa melancolia.
Outra era o sonho e o fervor e lhe causava inquietação.
Sempre que estava com uma,sofria achando que traía a outra.
Talvez fosse preciso amputar seus vôos.
Ou aprender que um homem pode ter seu sonho, e nele cultivar as suas árvores, e saborear seus frutos - ainda que sejam simplesmente magia.
Mas para alguns, a ser também um anjo, e ainda por cima encontrar um igual com quem dividir os horizontes e os ventos - sempre sempre sempre -, pode ser uma excessiva alegria, e o começo da condenação.
Pois o medo - não o tempo - é inimigo do amor.
A mulher que lhe estava destinada, que lhe diria vem comigo, vem comigo...
um dia acordou com dor nas costas. Não era bem dor, mas um desconforto. E nem era no lugar habitual, logo acima dos quadris e abaixo da cintura, era nos ombros, abaixo das omoplatas.
Pensou, tenho de começar a fazer ginástica, alongamento, só caminhar três vezes por semana não basta.
- Você tem de arrumar um amante pra trepar - lhe dissera a amiga desbocada - , porque com seu marido sei que você nem trepa mais.
- Trepar a gente trepa - ela respondera, rindo meio sem graça - , mas com parcimônia. - E riram as duas, achando graça daquela intimidade de colegiais.
Notou depois de alguns dias que andava mais inquieta e mais distraída. Os filhos pareciam mais barulhentos, o marido mais sem graça, o trabalho mais cansativo.
Seus pensamentos eram douradas borboletas saindo livres da sua realidade, que afinal - embora monótona - era sempre um conforto.
Este é o meu lugar no mundo, pensava retornando para casa no fim de cada tarde.
Esta é a minha tarefa no mundo, pensava fazendo as compras com a lista do supermercado na mão, o filho menor, já adolescente, empurrando o carrinho da mãe, mal-humorado.
E outra vez, saindo do banho e olhando-se no espelho nua, viu que estava meio cansado aquele corpo. Olhou-se de frente, o ventre um pouco flácido, os seios nem de longe os seios gregos que o marido beijava com ardor nos primeiros tempos.
Examinou seu corpo de lado e viu com pavor que havia duas marcas longas espáduas abaixo, duas listras nascendo logo debaixo dos ombros e descendo até quase a cintura, convexas, saltadas como cicatrizes enormes, dois dedos de largura.
Tentou tocar-se meio sem jeito, difícil de alcançar, mas conseguiu : aquilo era mágico, ao toque de seus dedos começava a palpitar.
Pensou : se for câncer é um câncer esquisito, e de tão grande nem adianta falar porque devo estar morrendo mesmo.
Mas o rosto estava bom, a pele saudável, a cor razoável, não tinha ar de doente terminal, e decidiu esperar um pouco para ver no que dava. Sua mãe fazia assim quando eram pequenos:
- Se daqui a três dias continuar doendo, a gente procura o médico.
Sentia-se a um tempo mais desgostada com a vida de sempre - pois agora era uma mulher com um encantamento - , mas muito mais animada, era fácil voar em pensamento.
Assim via de outro prisma o mundo e a si própria, tudo tranfigurado, palavras velhas soavam como se fossem conchas sonoras; rostos familiares estavam recobertos de uma nova claridade; ela mesma abria-se em tantas camadas que se surpreendia:
- Então isso também sou eu? E mais isso, e isso?
Era possível viver - com susto - fora dos rótulos que lhe asseguravam a existência até ali.
- Você anda distraída, hein, mãe - lhe disse o filho mais velho um dia.
O marido não percebia nada. Mas ele não costumava mesmo prestar muita atenção. Insatisfeita com tudo, a mulher resolveu trocar a cor do cabelo, de um castanho comum, por um quase-vermelho brilhante.
Saiu do salão sentindo-se uma rainha egípcia, uma odalisca, uma aventureira, como quem trocasse o tapete da sala, cinzento, gasto e pequeno, por outro enorme, de cores berrantes.
Quando o marido entrou no fim do dia ela o aguardava ansiosa por dividir com ele ao menos aquela novidade e, radiante porque achava aquela transformação uma beleza, perguntou assim que o viu na soleira:
- Notando alguma coisa nova na casa, bem?
Ele parou, sorriu inseguro, olhou em torno, olhou para ela, abriu mais o sorriso e finalmente disse:
- Você trocou o tapete?
E ela não se zangou, lembrando quantas vezes fora impaciente com ele, quantas vezes criticara seus gostos e ironizara pequenas manias, quantas vezes fora pouco generosa.
Mas era a vida deles. E se queriam. E não era inteiramente ruim.
Porque o rumor dos passos familiares no corredor é um bem que só avalia quem o perdeu definitivamente.
Mas uma vez ela estava pensando em uma bela coisa erótica, o que há tempos não fazia, sozinha em casa depois do banho, e tocou-se como há muito não se tocava, pensando:
- Bem, se vou morrer mesmo, ao menos me divirto um pouco antes.
Pois os sinais nas costas estavam mais destacados, e o desconforto maior, como um ímpeto que precisasse muito sair dali - e na hora do supremo prazer deu um salto e sentou-se e sentiu que explodia, e de repente começou a alçar-se acima da cama.
Olhou por cima do ombro esquerdo e notou que nas suas espáduas se abriam duas asas - como de anjo.
Com esforço conseguiu aterrisar de novo, quase batera com a cabeça no teto, e andou até o banheiro, com cuidado para não levantar vôo ao menor movimento.
E se contemplou e se achou belíssima: uma mulher nua com duas asas, que logo aprendeu a manejar diante do espelho, abrir, fechar, levantar, dobrar de novo como um leque enorme.
E - mais estranho de tudo - não teve medo, mas alegria. Então era isso: não estava morrendo de um câncer esquisito, mas era uma esquisitice mágica, ela estava virando anjo.
Era agora uma centaura; não mais, como antes dizia brincando, meio mulher meio automóvel, meio mulher meio carrinho de supermercado,mas meio mulher, meio anjo.
No começo foi difícil acomodar aquelas asas debaixo da roupa, pois, mesmo que dobrassem direitinho, faziam um certo volume. Começou a usar roupas mais folgadas. E , como ninguém em casa ligasse muito para ela, logo se sentiu à vontade com o seu segredo.
Mas dava-lhe uma certa pena não ter a quem contar aquilo. Ao marido, nem pensar. A vida deles estava tão boa, tão acomodada, que não permitiria uma interferência daquelas, nunca se sabia quando as coisas começariam a desmoronar, e aí nada mais poderia conter a ruína.
Nem a melhor amiga entenderia. Pois era uma mulher, divertiam-se um pouco juntas, mas um assunto assim, estranheza demais, talvez a afastasse.
Iam interná-la como doida; iam querer operar e cortar as asas; iam botar na televisão como monstro; iam isolar e manipular em algum centro de pesquisas, sabe lá.
Sentia-se esfolada pelo roçar da belea do diferente.
O que era a sua descoberta de si, agora sua essência, tornou-se também exílio.
De noite subia no telhado da casa e abria as asas e saía a voar. Como uma mariposa gigante, sobrevoava o cotidiano, enxergando tudo de outra perspectiva, mais completa e mais vasta.
Chegando àquele patamar não havia mais volta, e agora ela era um ser desencontrado, um ser descosido - um verdadeiro ser humano.
E algum tempo depois, eles que haviam transposto seus confins, por caminhos singulares se encontraram, e, se não foram felizes para sempre, ao menos conquistaram, com risco e aflição, o dom de partilhar o seu sinal, que os marcava e isolava de todos os demais.
Esse é um dom dos deuses que ignora distância e tempo e diferenças, e ensina que o fervor vale a pena debaixo de asas generosas.
PS: Não importa muito como se faz nem em que direção se vai no amor, no trabalho, na visão de mundo, num novo projeto. O tempo estreito dos relógios, e todos os sensatos regulamentos que nos despersonalizam a cada hora de cada dia, são válidos quando aqui e ali abrem intervalos por onde se pode expandir a vida.
Essas coisas e outras Altéria me revela olhando através de mim como se eu nem existisse; mas sua boca atrevida está tensa, concentrada em me fabricar com seus bruxedos.
Ela me desenha: o círculo da cara, aqui um olho, ali outro olho, uma orelha, o nariz.
Onde estou nessas histórias dela? Serei apenas mais uma personagem das minhas próprias narrações? De onde surgem essas criaturas, como aparecem, de que jeito começam a mover-se em mim feito línguas, dedos em cavernas submersas chamando, querendo ser exploradas ou configuradas, desejando que eu lhes ponha limite - e ao mesmo tempo as libere para o seu maravilhoso transbordar?
Cada livro meu foi criado em torno de um personagem meio banal e meio demente, homem ou mulher. Mas podia ser também a morte; o tempo; um menino esquisito, um anão que até hoje nem eu sei o que significava nem se era real ou alucinado.
E não faz a menor diferença...
Aos poucos, quando das minhas incontáveis imaginações, aquela, a especial, se prende na barra da minha saia e pede para ser narrada (por mim ou por Altéria), começo a estender ao seu redor um universo que justifique, sem jamais explicar - para não perder a graça - , algumas das suas loucuras.
Uma infância de isolamento, uma família fragmentada, um quarto proibido, dilaceramentos, ou simplesmente a dureza de ser, formam a sua moldura de desencontros.
E aos poucos aquela minha criação passa a ser real: torna-se a verdade da minha mentira.
Crescem seus cabelos, seus olhos adquirem expressão, ela se move e seus gestos desabrocham, seu destino se escreve e se cumpre.
Em geral há poucas explicações, e finais sempre obscuros.
Não tentem me explicar, não me prendam, escrevi certa vez, mas podia ter escrito NÃO ME MATEM, como se espetassem uma borboleta no alfinete das interpretações.
Não acho que se deva entender uma história minha, é inútil perguntar-me: "O que significa aquilo?" pois em geral eu também não sei nem me importa. Muito mais que os significados, interessam-me as sugestões, as possibilidades, sendo mais belas do que as respostas.
É preciso entregar-se à minha narração, andar pelos caminhos dela, rolar em suas encostas , afogar-se em suas águas como eu tantas vezes fiz, para me acompanhar.
Mas é preciso , ao mesmo tempo, perder-se de mim e escrever no seu próprio pensamento uma história sobre a minha história; como um dia alguém escreveu a sua metáfora em torno da minha.
Assim terei um leitor - e o meu leitor terá a mim.
Lya Luft
enviada por kel
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