Diário da Kel

28/04/2006 14:31

Carta para Paulo

“OI, vc é a Kelce que morava em Realengo? Eu sou o Paulo vc morava em uma casa mal assombrada, cheia de fantasmas..e parentes estranhos”
E eu: “Casa assombrada? Parentes estranhos??? Sou eu mesmo.Hhahahhahaha...

Essa foi a conversa que tive hoje de manhã por e-mails.
Não sei como esse amigo me achou, mas nossa...como me fez bem esse reencontro.
Em seguida mandei o número do cel e conversamos um bocado, e foi impossível não me lembrar dele(lembrar não, porque a gente só se lembra daquilo que esquece, e eu nesses anos em que não estive por perto, o sentia perto...e quando não o abraçava, mesmo assim me sentia abraçada por ele), amigos de verdade, são assim...

Paulo...
Fui apresentada a ele por Reginaldo(que só hoje fiquei sabendo, faleceu..fiquei triste).e de tudo o que Reginaldo fez em sua vida, ressalto a grande idéia de me ter apresentado ao seu amigo Paulo(que além de adorar música), também queria ser advogado. Nossa química foi imediata, ficamos amigos de cara.
Lembro-me sempre de que ele uma vez me disse: “se vc precisar de mim, pra qualquer coisa(qualquer mesmo), me procure”. Não sei se isso foi alguma tática de sedução...mas funcionou.Acreditei mesmo nisso, e uma vez fui a sua casa pedir ajuda para fazer um figurino para uma peça de Teatro hahahahaha...Paulo rasgou um jeans, costurou e amarrou cordas, e fez o meu figurino...eu via tudo aquilo com uma graça, uma leveza, de quem olha algo absolutamente normal, talvez por me sentir capaz de fazer o mesmo por ele.
Ou talvez já adivinhasse que não seria essa a única vez que precisaria dele...o tempo me diria depois o amigo que eu tinha, e a importância dele em minha vida.

É verdade, eu morava mesmo em uma casa cheia de fantasmas(rica em tantas coisas), mas tão pobre de amor. Eu era a própria Cinderela, acordava cedo para limpar uma casa que nunca se sujava(pois ninguém nos visitava), e porque as janelas nunca eram abertas...que bom que eu não fui a única a perceber isso.
Eu morava com a minha tia Yémen(como explicar?).
Lembram da “Madrasta”, meio por aí...mas não sei porque mesmo agora, não consigo ter raiva dela...ela não sabe, nunca soube..mas me deu mais força pra ser quem eu sou hoje. Para contrariar minha tia, para irritar mais e mais a minha tia, resolvi não me deixar abater, cada vez que uma frase ou outra(geralmente tão duras), chegavam aos meus ouvidos de criança. Eu era tão criança...mas já sabia entender ou quis acreditar mais que tudo, que eu estava ali apenas, mas que não pertencia aquele lugar.
Isso me manteve viva, na infância e adolescência...e só assim pude ver beleza nas coisas, no mundo e até em mim.
Era uma casa imensa...tantos quartos(o meu era o menor de todos), mas era um refúgio, onde eu me pintava e me cantava e me escrevia...do jeito que queria ser um dia ...
Hoje sou...e continuo sendo...

Sofri, cresci, fiz escolhas erradas...amei e desamei numa velocidade incrível...e precisei do meu amigo..de novo, de novo...
Uma vez , já com a minha filha (ela bem pequena), eu disse pra ele, que eu sentia muito frio(morando na casa de uma outra tia).E ele pegou o seu cobertor( o único que tinha) e me deu. Ele talvez não saiba, mas me aqueceu não só o corpo, com esse gesto...mas a minha alma, meu coração... aqueceu muito, e me ajudou muito, por muito...muito tempo(ainda tenho aqui, pedaços desse cobertor, que não jogo fora por nada.Ele duvidou quando eu falei...acho que nem se lembrava mais, do bem que fez a mim e a minha filha...pessoas generosas são assim! Não fazem alarde do bem que fazem.
Mas eu...preciso falar.
Não me lembro do nome da mãe dele, mas me lembro dela...
Ela no início tinha em relação a mim, uma certa desconfiança(talvez pelo meu jeito tão alegre e falante), sei que assusto um pouco a primeira, a segunda, a terceira vista hahahahahah...
Talvez por preocupação com o filho , sei lá...eu entendo.
Ela me tratava com educação mas com uma certa distancia.
Mas uma vez(minha filha estava doente, muito doente), e eu não tinha a quem recorrer a quem pedir...estava andando na rua com a minha filha no colo, achando que estava andando sem direção...mas Deus já tinha pensado em tudo.Me fez entrar em um ônibus, e quem encontrei nele? A Mãe de Paulo, que ao me ver, perguntou por minha neném, e ao falar dela, chorei dentro do ônibus.Ela quis saber o motivo do choro, mostrei minha filha e a infecção em seu corpinho e imediatamente a Mãe do Paulo, me puxou, descemos do ônibus...caminhamos um pouco em silêncio.Ela disse que me levaria em uma Clínica, que me levaria ao médico que havia cuidado de seus filhos, quando eram pequenos.
Eu expliquei que não tinha dinheiro para pagar as consultas e os remédios, e ela me olhou de um jeito, não disse nada, apenas me levou até a Clínica.
Minha filha estava com uma infecção horrível no peito, lá fui informada, que ela teria que fazer uma drenagem no local, que ficaria internada.
O Médico(também não lembro o nome agora, foi muito carinhoso conosco) e não parava de chamar a Angra de Letícia(dizia que esse nome significava alegria), por vezes...as tristezas eram tantas, que eu pensava nisso(será que a culpa era do nome que escolhi?), não teria sido melhor, dar a minha filha um nome que invocasse a ALEGRIA.

Depois que a minha filha teve alta, segui as orientações médicas.
A mãe do Paulo foi maravilhosa, foi minha mãe também , naquele momento...nunca esqueci, nunca vou esquecer o que ela fez por minha filha. Pagou todo o tratamento e depois desse dia, passou a ter por mim também uma carinho suave e até contido(mas era carinho e na medida certa), hoje sei.
E preciso dizer, apesar do Médico ter me garantido, que a minha filha ficaria boa, que teria uma vida normal, um corpo normal e saudável, que em nada ela seria prejudicada no futuro...eu não tive Paz, orava todos os dias por ela, e a noite(todas as noites), colocava a mão sobre o peito de minha filha e pedia a Deus, que cuidasse dela, que não permitisse qualquer dano, ou seqüela).
Hoje comentei isso com o Paulo...e estou chorando agora, escrevendo aqui...

Paulo...que alegria poder falar com você hoje, vejo isso como mais um presente de Deus( e veio em um momento tão delicado).
Te peço perdão ,não estive por perto pra te aplaudir nos seus grandes momentos(tantos). Não te dei apoio quando você também precisou...
Mas não te esqueci, nem sei se você entende ou acredita...mas te trago guardado, lacrado...aberto só pra quem te merece!
Estou vivendo, cantando...amando minha filha, os amigos, a música(sempre).
Caindo, “vivendo e aprendendo a jogar”
A mesma menina, a mesma criança...
Talvez feliz!
E você faz parte disso.
Te amo

“É bom saber que és parte de mim.
Assim como és parte das manhãs...
Eu canto e sei.Que também me vês.
Aqui, aqui, com essa canção...” (Vitor Ramil)

enviada por kel






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