31/03/2006 17:04
"A TRANSFIGURAÇÃO PELA POESIA"
Creio firmemente que o confinamento em si mesmo,imposto a toda uma legião de
criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as
explosões da paz.No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação
crescer.Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda
não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza de reconstruí-lo
livre.Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de
batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade
e contra ela , a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e
espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de
se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o
pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e
das inteligências o mal entendido.
Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão
intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos
caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento.
Tenho que só a poesia poderá salvar o mundo da paz política que se anuncia -
a poesia que é carne, a carne dos pobres humilhados, das mulheres que
sofrem, das crianças com frio, a carne das auroras e dos poentes sobre o
chão ainda aberto em crateras.
Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la
fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres .Em quantos jovens
corações , neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura
presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado , amarga , incerta
esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá filtrado a
sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de
fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos
parados no antemomento do ataque , na hora da derrota , no instante preciso
da morte ? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de
revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo?
Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a
miséria de muitos , da arrogância de certos para a humilhação de quase
todos.Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em
couro, do corpo em pano e da cabeça em aço.
Sofre o mundo da tranformação das mãos em isntrumentos de castigo e em
símbolos de força .Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado
em tanque de guerra , da imagem do semeador que semeia na do autômato com
seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões .
A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua
voz.Parece tão vago , tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão
fatal ! Não se trata de desencantá-la , porque creio na sua aparição
espontânea , inelutável.Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de
um mundo caduco; de vozes de homem simples , operários , artistas,
lavradores, marítimos, brancos e negros , cantando o seu labor de edificar,
criar,plantar, navegar um novo mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e
filhas , procriando, lidando, fazendo amor,drama, perdão. E contra essas
vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes
soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas . E
o povo então poderá cantar seus próprios cantos , porque os poetas serão em
maior número e a poesia há de velar.
(Vinicius de Moraes)
Primeira crônica do Autor, publicada em A Manhã - 1.946
enviada por kel
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